Ernesto Guerra Da Cal foi o vulto galego mais importante da segunda metade do século XX, a nível internacional. Licenciou-se em Filosofia e Letras e exerceu a actividade de professor nos Estados Unidos de América. Para além de poeta e ensaista, foi ainda colaborador em trabalhos de investigação para universidades de Portugal e do Brasil, países aonde se deslocou para proferir diversas conferências e seminários.
Foi um dos mais reconhecidos especialistas em Eça de Queirós, autor sobre quem versou a sua tese de doutoramento, a primeira tese sobre literatura portuguesa nos EUA. Participou na vida cultural galega no exílio, colaborando na Unity Gallega de Nova Iorque, entre outros coletivos de emigrantes. Foi membro da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e da Academia de Ciências de Nova Iorque. Recebeu diversas honras, entre as quais podemos destacar a Medalha do Padre Anchieta, o Oficialato da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a Medalha Oskar Nobiling e a Medalha Honoris Causa pela Universidade de Baía (Brasil); a Ordem Militar de Santiago-da-Espada, a Ordem do Infante Dom Henrique, a Ordem Militar da Nossa Senhora da Conceição de Vila-Viçosa e a Medalha Honoris Causa pela Universidade de Coimbra (Portugal); recebeu a medalha da Hispanic Society of America e foi homenageado pela University of California como pioneiro dos Estudos Luso-Brasileiros nos Estados Unidos.
Publicou diversos ensaios, entre os quais destacamos Lengua y Estilo de Eça de Queiroz, publicado pela Universidade de Coimbra, e a monumental Bibliografia Queirosiana. A maior parte da sua poesia, cerca de 300 poemas, está recolhida nos volumes Lua de alén Mar (1959), “Poemas” (revista Papeles de Son Armadans, 1961), Rio de Sonho e Tempo (1963), “Seis motivos do eu” (Papeles de Son Armadans, 1966), Futuro Imemorial (1985), Deus, Tempo, Morte, Amor e outras bagatelas (1987), Espelho Cego (1990) e Caracol ao Pôr-do-sol (1991). Quer nos seus ensaios quer nas suas escolhas poéticas, sempre defendeu que a língua galega era uma variedade da portuguesa, devendo normativizar-se conjuntamente com esta e sob os mesmos critérios. Os poemas que incluímos a seguir fazem parte dos livros Futuro Imemorial e Caracol ao Pôr-do-sol.
Embora a palavra “Europa” não surja na produção poética de Guerra Da Cal, a verdade é que essa obra relata continuamente a história da Europa. Os temas fundamentais que podemos achar na sua poesia são a guerra e a emigração, que chegam a fundirse num só poema, ambos ligados à memória, a experiência vital. O primeiro é “Guerra – No esquecimento”, onde assistimos à representação do espaço bélico inspirado, possivelmente, pela guerra civil espanhola: “toco o meu camarada / aqui / ao meu lado / na trincheira avançada: / Morto!”. No segundo, “Campanha”, a linguagem bélica traduz a infeliz situação dos emigrados por culpa do conflito: “Filho perdido / da minha Mãe / Moço arrancado / da minha Terra / Morto soldado desconhecido”. No terceiro, “Pátria, A Galiza”, temos as lembranças da terra abandonada, preservadas indefinidamente na memória: “Amo-te / sobretudo / como eu te quereria / como eu em mim te crio / dia após dia / como um encantamento da minha infância / e da minha fantasia”, repetindo-se o motivo da emigração: “Posso eu acaso me reconhecer / naquele rapaz loiro / que chorando partiu / um dia crepuscular e montanhoso / de Quiroga / no Sil / há tantos anos e tantos desenganos?”. No quarto poema, “Sonho vivo em paisagem morta”, o autor descreve mais uma vez o espaço marcial: “O Sol brilha indecente / e / indiferentemente nu / a alumiar os sapatos / vazios / dos cadáveres”, chegando a dar detalhes que podemos associar com diversas guerras, quer por nomear o lugar, quer por vultos ligados a elas: “E uma tarde de sol / morrer ainda outra vez / lambendo heroicamente / as botas militares / no Vietname / ou dando hebraicamente / os dentes de ouro / às câmaras de gás / ou cuspindo os pulmões aos pedaços / nas rochas Franco-regeneradoras / do Vale dos Caídos”. No quinto, “Pavana ritual para um poeta assassinado”, a guerra e as suas consequências em Espanha, o assassinato massivo de pessoas inocentes, como Federico García Lorca, íntimo amigo de Guerra Da Cal: “FEDERICO, estás morto! Ouves o que te digo? / Mataram-te bem morto / de uma morte total / perpétua, irrevogável”. Finalmente, o sexto poema, “Bombardeamento”, combina um relato amoroso com um relato belicista: “Depois: dois corpos nus / em entrelaçamento incandescente / Cheiro a sexo / misturado com água de colónia / húmidos beijos / lascivos e inocentes… / E de chofre: – / o alto alarido das sereias de alarme / e o roncar dos motores agressores pelos cimos do céu”.
Lista de poemas sobre a Europa
– “Guerra – No esquecimento”, Futuro Imemorial (1985)
– “Campanha”, Futuro Imemorial (1985)
– “Pátria – A Galiza”, Futuro Imemorial (1985)
– “Sonho vivo em paisagem morta”, Futuro Imemorial (1985)
– “Pavana ritual para um poeta assassinado”, Futuro Imemorial (1985)
– “Bombardeamento”, Caracol ao Pôr-do-sol (1991)
Antologia breve
GUERRA — NO ESQUECIMENTO
Na noite inacabada dos derradeiros tiros da vaga madrugada quase calma toco o meu camarada aqui ao meu lado na trincheira avançada: Morto! E quero preservar no arquivo da minha alma a sua cara Não a cara fechada já desactualizada do seu agora frio senão aquela outra que tinha sempre aberta em perene risada quando vivo Não posso e fico absorto E vejo que no mundo não há nada mais cruelmente difícil de fixar que um rosto vivo morto E essa certeza gélida marmórea me fere no recanto mais íntimo do espaço limpo do espanto branco da desmemória Cuernavaca México 1958 (Futuro imemorial, 1985)
CAMPANHA
Filho perdido
da minha Mãe
Moço arrancado
da minha Terra
Morto soldado desconhecido
da minha obscura
e errante guerra
Onde há uma cova
e uma mortalha
para o insepulto
corpo jacente
do combatente
Galaaz andante sem Graal à frente
nu
frio
sozinho?
Houve batalha?
Haverá paz?
Houve caminho?
New York City
1965
(Futuro Imemorial, 1985)
PÁTRIA
Porque volvió, sin regresar, Ulises.
Miguel Ángel Asturias
A Galiza
é para mim
um mito pessoal
maternal e nutrício
com longa teimosia elaborado
de louco amor filial
de degredado
(E de facto é também
— porquê não confessá-lo —
um execrável vício
sublimado)
A Galiza
foi sempre para mim
um refúgio mental
um jardim de lembranças
sossegado
um ninho de frouxel acolhedor
para onde fugir
do duro batalhar e do estridor
da Vida
e do acre ressaibo do Pecado
Subterfúgio subtil
e purificador
de interior evasão
para o descanso da alma
na calma
pastoril
de perfeição de Arcádia
da Terra Prometida
da imaginação
A Galiza
é o meu amor constante
tranquila e fiel esposa
e impetuosa amante
sempre
como Penélope a tecer
na espera
ansiosa e plácida
paciente e palpitante
de retorno final
do seu errante e navegante Ulisses
— outra quimera!
Amo-a
como o náufrago desesperado
ama a costa longínqua e ansiada
que nunca há-de avistar
Amo-a
com saudade antevista de emigrado
que à partida se sabe já
fadado
a ser ausente morrinhento
de nunca mais voltar
Porque ninguém jamais regressa do desterro
à mesma terra que deixou
(O Espaço dissolve-se no Tempo:
os lugares
e as gentes que os habitam
mudam e morrem sempre
e nós também morremos
e mudamos
Posso eu acaso me reconhecer
naquele rapaz loiro
que chorando partiu
um dia crepuscular e montanhoso
de Quiroga
no Sil
há tantos anos
e tantos desenganos?
Amo-a
Amei-a sempre
porque nunca deixei
de estar ligado a Ela
pelo umbigo
Porque Ela foi meu berço
e onde quer que eu morrer
Ela há-de ser
o meu íntimo
e último jazigo
Amo-te
enfim
Galiza
coitada, triste e bela Pátria minha
como Tu és
como o Senhor
num mau dia te fez
órfã de história e alienada de alma
vespertina submissa e maliciosa
rústica e pobrezinha
Amo-te
sobretudo
como eu te quereria
como eu em mim te crio
dia após dia
como um encantamento da minha infância
e da minha fantasia
Amo-te
como eu
tresnoitado poeta evangelista
te invento e mitifico
E, como com Jesus Cristo fez Mateus,
visto com ilusórios véus
a tua miseranda e cinzenta Paixão
e intento
com interna e intensa
distante devoção
pôr-te um nimbo de Glória imaginária
num apócrifo Novo Testamento
Estoril
1984
(Futuro Imemorial, 1985)
SONHO VIVO EM PAISAGEM MORTA
A Mestre Rodrigues Lapa, ex toto corde
As pombas caem mortas
dos ramos da oliveira
e Cassandra as recolhe
e tenta revivê-las com saliva
(Onde estou? Que paisagem é esta?)
O Sol brilha indecente
e indiferentemente nu
a alumiar os sapatos
vazios
dos cadáveres
e a desfilar em nuvens de entressonho
os ossos espelhados dos feridos
as choupanas em brasa
as mulheres abertas
e as pétalas vermelhas dos meninos
que desfolhou a bomba
infanticida
(Onde estou? Onde estou? Estou perdido!)
Tormentas de cabelos inflamados
multidões de membros divorciados
em fuga desmedida
desnorteiam as moscas
verdes
da podridão
vagabundas da noite arrepiada
(Que paisagem é esta? Estou com frio!)
Estrelas moribundas e tinhosas
percorrem tresloucadas
os cemitérios cegos
à procura
de sombras transparentes e sem dono
no céu empedernido
sem saída
(Por favor, onde estou?)
Os canhões
como lobos
ululam negramente
na peçonhenta lividez de Lua
que parte em dois o dia
tornando absurda a hora
que não é
nem de Fim
nem de Começo
(E eu me pergunto
alheio:
como é que eu vim parar
a esta paisagem?)
Onde foram as Ninfas
e os Sátiros de Rubens?
Onde as Festas Galantes
de Verlaine
A Ilha dos Amores
de Camões?
E Catulo
e o Mirto
e a Maçã
E as tetas de Afrodite
deliciosas
E as doces inocências do Natal
com Gaspar e Melchior e Baltasar
e o presépio de barro
do Menino Jesus?
Não se pode escapar
já nunca mais
do apavorante carrocel de Sonho?
Haverá que nascer
idiotamente sempre
para aprender Latim
ou qualquer coisa assim
em tardes infindáveis
masturbadas?
E ter que decorar
que «A Gália era toda dividida
em partes três»
E chorar
ter o sarampo
rir
cantar
namorar
fornicar
e acreditar
que Deus é Bom e Justo e Todo-Poderoso
Princípio e Fim de tudo
E tomar aspirinas
p´ra as dores metafísicas
divinas
E uma tarde de sol
morrer ainda outra vez
lambendo heroicamente
as botas militares
no Vietname
ou dando hebraicamente
os dentes de ouro
às câmaras de gás
ou cuspindo os pulmões aos pedaços
nas rochas Franco-regeneradoras
do Vale dos Caídos
ou entregando a alma
lavada com lixívia
e encravada
a um Comissário gordo
entre arames farpados
nas tundras da Sibéria
(Eu sei que já cá estive
Conheço esta Paixão
e esta Paisagem
Já dormi e acordei
e tornei a dormir
e a despertar
no mesmo amanhecer alucinado
de pesadelo eterno
marasmado
Conheço esta Paisagem
com olhos invadidos de água
amarga
de vergonha e espanto transbordados)
Será assim para sempre
sem Dia da Ira — e o Arcanjo sempre ausente?
Sempre a recomeçar
a afronta inexorável
do lume das Fogueiras
do frio das Masmorras
dos nós das Forcas
e o lampejar de chumbo
das descargas
dos Esquadrões da Morte?
Sempre as mesmas orgias sanguinolentas
dos Ouros
e das Copas
e as Espadas
e dos Paus implacáveis
das torvas Utopias aplicadas?
Meu velho coração
está rebelde hoje
Como está revoltado
o chapéu maltrapilho
com que ele cobre
a sua nocturnidade calcinada
E ambos se insurgem
brandos
recusando aceitar tanta ruína
de Paisagem macabra e asinina
E os dois levantam seu protesto
gasto
e uma bandeira antiga
enfastiada e branca
pedindo as tréguas
gritando a Deus que rompa
o seu longo silêncio criminoso
e que decrete o Fim definitivo
deste insano terror
destro e sinistro
Pedindo o absoluto indispensável
o Pão
o Sal
Pedindo a limpa Aurora
que desterre p’ra sempre
esta Noite abismal incoerente
monocorde e teimosa
E eu desfilo com eles no peito e na cabeça
abraçado à esperança luminosa
do nascimento eterno
e intemporal da Rosa
Amityville
New York
1975
(Futuro Imemorial, 1985)
PAVANA RITUAL
PARA UM POETA ASSASSINADO
(GRANADA) 1936
Only the dead are safe.
George Santayana
Baruch at-Adonai!
Bendito seja Deus!
ELE
acolheu-te no berço do seu regaço imenso
com grandioso, profundo e desolado
lamento de Pietà
com o que deu Maria na Descida
do Corpo inanimado do Filho
na Paixão
Na noite inexorável que a Morte já escolhera
para selar teu canto com seu beijo sombrio
ouviram-se na Alhambra
e entre os ciprestes do Generalife
os soluços das fontes
afogados
E as colunas morunas
nos seus arcos de lua rendilhada
tremeram com um forte calafrio
Doze Leões em roda no seu Pátio
rugiram um trovão vulcânico
de pedra
que abafou em Viznar
a descarga sinistra dos morcegos tricornes
inimigos da Luz e da Beleza
E todas as guitarras de Picasso
e as da Hispânia infinita
arranharam a cara num pranto em carne viva
querendo para sempre emudecê-las
e mostraram
pela primeira vez
as antigas e íntimas
cicatrizes ocultas das colhidas
Leopardos e Pombas
Arcanjos e Demónios
Ancestrais Minotauros de Tartessos
e Touros milenários
de Assíria, de Guernica
de Creta e do Zodíaco
e as outras criaturas
humildes do bom Deus
todos
se inteiriçaram
naquele infindo instante
em que a mão gris
de chumbo
te arrebatou do teu jardim moreno
de Ecos em cio
a procura do gume de navalhas em flor
e Narcisos sonâmbulos feridos
por sombras a galope na espiral
da tua noite verde
de oliveirais ciganos
espectrais
FEDERICO, estás morto! Ouves o que te digo?
Mataram-te bem morto
de uma morte total
perpétua, irrevogável
O apetite de sangue saciou-se:
O Cordeiro morreu
morreu o Rouxinol
Agora
estás moldado em osso
talhado em cinza
Porém
não há quem possa
extinguir os teus olhos de lume aluarado
Eu os vejo ainda abertos
E a cantar!
A heróica altura estóica da Tragédia
incendeia em vermelho
essa canção pasmosa de criança grande
cândida e sabiamente
assombrada do mundo
inédito
em redor
As lágrimas secaram
e o Tempo pôde já
respirar à vontade
sem angústia
O som silencioso
do fluir das areias da ampulheta
vai esvaindo aos poucos
o perfil tenebroso
da negrura do crime
inexpiável
(Na corrente de sombra do Passado
apenas mais um elo
violento e fantasmal)
Porém
a voz insólita arderá para sempre
vibrando em brasa cada vez mais alta
Agora estás a salvo, FEDERICO
tranquilo no descanso de granito
vasto e seguro
das mansões da Morte
Nem Ela
nem ninguém
pode tocar-te!
Estoril
1984
(Futuro Imemorial, 1985)
BOMBARDEAMENTO
[Barcelona, 1938]
Encontrei-a na rua
perto da Diagonal
Era loira e bem feita
Duas covinhas
pontuavam-lhe a curva do sorriso
auroral
Disse-me o nome
que os longos anos idos
fizeram esquecer
Lembro-me do apelido
– bem catalão: Carner
Era virgem, católica e ardente
…………..
…………..
Depois: dois corpos nus
em entrelaçamento incandescente
Cheiro a sexo
misturado com água de colónia
húmidos beijos
lascivos e inocentes…
E de chofre: –
o alto alarido das sereias de alarme
e o roncar dos motores agressores pelos cimos do céu:
…………….
trovões
estilhaços
calçadas esventradas
prédios ao desbarato
corpos despedaçados….
…………..
…………..
“Fins a demá! – disseste num abraço
perturbado
no teu idioma próprio
Mas não houve ‘amanhã’
naturalmente
Não havia tampouco ontem nem hoje
Era guerra
e a guerra anula o Tempo
Tivemos só um instante
furiosamente edénico
interrupto
naquele quarto ingreme e vacante
de amorosa guarida
E para sempre nunca mais:
Adeus!
E um holocausto como despedida.
Londres
Fevereiro, 1991.
(Caracol ao Pôr-do-sol, 1991)
Bibliografia ativa selecionada
GÔMEZ, Joel R. (2015), Ernesto Guerra Da Cal, do exílio a galego universal, Santiago de Compostela, Através Editora.
LÓPEZ ZEBRAL, Manuel (2020), O Ferrolano Ernesto Guerra Da Cal, estudo do seu pensamento político, biográfico e de contexto, disponível em: www.academia.edu/42755154/O_FERROLANO_ERNESTO_GUERRA_DA_CAL_ESTUDO_DO_SEU_PENSAMENTO_POL%C3%8DTICO_BIOGR%C3%81FICO_E_DE_CONTEXTO_por_MANUEL_LOPES_ZEBRAL
CAL, Ernesto Guerra da (1985), Futuro Imemorial, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora.
— (1991), Caracol ao Pôr-do-sol, Corunha, AGAL.
Paulo Fernandes Mirás
Como citar este verbete:
MIRÁS, Paulo Fernandes (2022), “Ernesto Guerra Da Cal”, in A Europa face a Europa: poetas escrevem a Europa. ISBN 978-989-99999-1-6.
https://aeuropafaceaeuropa.ilcml.com/pt/verbete/ernesto-guerra-da-cal/
